quinta-feira, 12 de outubro de 2017

O céu e o inferno somos nós e os outros... nada mais!





Costumava fazer uma reflexão com meus alunos na época em que fui professora de E.R. acerca da hipocrisia do amor e da fraternidade entre aqueles religiosos que se julgam bons. Na verdade eu questionava a coerência entre discurso e ação das pessoas no que diz respeito a virtude, utilizando como cenário a ideia do veredito eterno divino. Supondo que seja verdadeira a teoria de que haverá um juízo final e que aqueles que não forem "bons" o suficiente serão condenados a purgar eternamente no inferno ou sei lá onde. Ou passarão por um período na churrasqueira cósmica do Capeta (como bem descreve minha querida filósofa Lourdes Santos) até que entrem na linha, ou seja, que se encaixem no modelo judaico cristão de virtude e possam merecer o paraíso eterno. 


Sugeria que pensassem na hipótese de que uma pessoa amada e querida fosse condenada ao inferno e eles ao paraíso. Perguntava a eles se conseguiriam permanecer em paz no jardim bucólico divino, cantando com passarinhos eternamente enquanto um irmão agonizava eternamente nas labaredas do Capiroto.

Primeiramente eu me pergunto que tipo de Deus condenaria alguém a uma coisa tão bizarra! Mas essa não é a questão!
A pergunta que eu fazia aos meus queridos alunos era se eles conseguiriam deixar essa pessoa, seja quem fosse, no inferno agonizando para sempre caso eles fossem para o paraíso. Se o coração deles ficaria em paz, se conseguiriam ser felizes enquanto os outros sofrem. De modo geral as religiões não dizem que somos todos irmãos? Não dizem que temos que amar uns aos outros? Dei-me conta de que essa fraternidade é relativa quando se trata da condenação eterna sob o frágil argumento do livre arbítrio.

Pois bem, pra completar (lacrar!) eu dizia que se eu fosse para o paraíso eu pediria uma audiência com Deus para pedir permissão para ir ao inferno ajudar os meus irmãos... Quanta ingenuidade da minha parte!

De fato eu estava bem intencionada. Imbuída de um sentimento de fraternidade, de coletivo, de amor ao próximo, me julgando perfeitamente (e arrogantemente) "boa" e capaz de, se fosse o caso, descer aos infernos para resgatar um irmão que sofre. Se fosse minha filha então, acabaria com o Capeta a tridentada!
Hoje, um pouco menos delirante, reflito sobre isso de outra maneira. Dei-me conta de que descemos ao inferno constantemente, sem que seja necessário que venha um Deus bater um martelo sobre meus pecados.
No meu caso, sofro profundamente quando testemunho atos atrozes contra pessoas que eu nem conheço, imagine quando alguém perto de mim está sofrendo? Imagine quando um infortúnio acontece em minha vida... Me vi por muito tempo empenhada em contagiar as pessoas a minha volta com as ideias da fraternidade, da acolhida, da espiritualidade, do amor ao próximo, do respeito e consideração com os sentimentos alheios, com a empatia e autoconhecimento. Passei anos repetindo todos os tipos de argumentos possíveis com meus alunos e amigos a respeito disso e sinceramente sinto que a maioria foi indiferente ou não compreendeu. Talvez eu não tenha me expressado bem! Ou quem sabe o problema seja a concorrência! Ou até quem sabe Rubem Alves tenha me dado a resposta há tanto tempo com a sua metáfora da pipoca e eu só agora a compreendi realmente!
O fato é que compreendi que eu estava equivocada em acreditar que eu poderia ajudar alguém indo aos infernos levar alguma luz, pois dei-me conta de que muitos simplesmente não querem sair de lá. Não me acreditam e até riem de mim enquanto gozam de seus prazeres efêmeros. Ou até mesmo me tacam pedras, ofensas... Muitos dizem acreditar em Jesus, mas se o próprio aparecesse diante deles não acreditariam e talvez rissem dele também dizendo: La vem ele com esse papinho de amor ao próximo. Que piegas!
Talvez para essas pessoas Deus seja como um Zeus da mitologia grega que esbanja poder lançando raios naqueles que despertam a sua ira ou contrariam os seus caprichos.
Entendi que eu ainda não tenho cacife para ir aos infernos (ou a lugar algum rsrsrs) "salvar" quem quer que seja de sua agonia, pois estou tentando "salvar" a mim mesma da minha humanidade demasiada humana. E que para além das metáforas existe alguém que não se esconde atrás de teorias bonitinhas e que descobriu que quanto mais disponíveis estamos, mais somos julgados e crucificados.  
Cada consciência deve salvar a si mesma do individualismo, do niilismo, do egoísmo, da confusão de sentido.
Eu realmente não  acredito nessas teorias de céu e inferno metafísicos. Mas acredito que temos o céu e o inferno dentro de nós e que cada um precisa aprender a distinguir esses mundos dentro de si e perceber que todos nós passamos pelo inferno se quisermos chegar no paraíso. E que nenhuma teoria te ajuda na hora do sufoco.
Quando adolescente eu tinha muitas ideias de morte. Mas nunca por não querer viver. Mas por acreditar que há de existir em algum lugar uma dimensão mais evoluída em que os seres de fato vivam a fraternidade tão lindamente pregada por aqui nessa dimensão. 

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

A patologia das relações líquidas



Zygmunt Bauman foi um sociólogo e filósofo Polonês da atualidade, que discorreu sobre uma teoria interessante acerca das relações humanas. Ele utiliza o termo "relações líquidas" para descrever a maneira como as pessoas estabelecem e desfazem seus vínculos. De modo geral ele fala sobre a falta de solidez nas relações atuais.

Até conhecer a teoria de Bauman, eu acreditava que tinha algum problema psicológico ou sofria de alguma patologia crônica de carência afetiva profunda ou quem sabe alguma lacuna de autoestima grave daquelas que requerem auxílio terapêutico. Todavia, minhas observações acerca das relações que tenho vivido e testemunhado entre meus conhecidos tem mostrado para mim que existe uma código velado de conduta com vistas a preservação de um orgulho, confundido com amor próprio e aparência. Percebi que o problema não está necessariamente na minha forma de me relacionar, mas na minha forma de compreender como as pessoas se relacionam.

Ok, admito que sou leonina e levo bastante a sério cada relação que estabeleço. Mas fora essa particularidade da minha pessoa (pouco relevante, diga-se de passagem!) creio que exista uma questão a ser observada na maneira como as relações se dão no momento atual. 
Desde que me mudei para a Europa eu tenho me preparado para a tal frieza do Europeu. Tinha em mente aquele mito de que são muito fechados e que demoram horrores para estabelecer um vínculo com alguém. 



Bem, essa minha experiência me possibilitou perceber algumas coisas e suscitou em mim algumas reflexões sobre as relações. 
A primeira delas é que de modo geral não existe muita diferença no que diz respeito à liquidez nas relações, sendo aqui ou no Brasil. Mas... existe algo interessante que faz toda a diferença para mim.



Eu tive algumas experiências que descreveria como traumáticas em relação as amizades no Brasil (tá, estou sendo dramática!!!).

No Brasil as pessoas são aparentemente mais disponíveis para as amizades. Aparentemente mais acolhedoras e afetivas e em cinco minutos que conhecem alguém já abrem toda a história de sua vida. Isso não acontece aqui. Pelo menos até onde pude observar. Essa diferença é crucial na vida de pessoas como eu! Crucial e positiva, diria! Pois é menos comum ocorrer essa banalização dos afetos, como acontecia nas minhas relações no Brasil. Eu sinto que aqui as pessoas são um pouco mais carentes, todavia, muito mais sensatas ao decidirem se estão ou não dispostas a estabelecer uma relação com você e não saem por aí declarando amor profundo se isso não for de fato real. Diferente no Brasil, que existe uma histeria momentânea em que a pessoa é sua melhor amiga, te declara amor profundo e admiração e após algum tempo, sem nenhum motivo aparente, ela se torna completamente indiferente a quem você é, ao que você faz e ao que você sente.

No Brasil também acontece uma coisa muito bizarra que ainda não tive o desprazer de presenciar aqui. Devido a esse momento crítico no cenário político brasileiro em que a sociedade se divide entre duas principais ideologias extremas, se posicionar pode ser definitivo nas suas relações de amizade. Não se posicionar também. Tenho quase certeza que para alguns eu sou vista como coxinha e para outras, mortadela! Já teve gente que até me excluiu do facebook (símbolo máximo de rompimento de vínculo, na atualidade!) por eu manifestar minha opinião em relação a alguma questão política. Não consigo nem mesmo lamentar esse tipo de atitude, por que faz parte desse contexto em que "se conhece e se julga uma pessoa pela sua opinião em relação ao bolsa-família".

Não entendo essa categorização do sofrimento alheio em escalas de importância e a radicalização das análises em contextos unilaterais. Olhar todo o mundo e todas as pessoas por meio de um só paradigma, o social, não me satisfaz. Eu acredito que exista mais de uma forma de ver o mundo e as pessoas. Amar o próximo quando ele está lá na África passando fome e falar do sofrimento dele é lindo... mas ser empático ao seu vizinho que está com depressão querendo se matar também pode ser uma boa maneira de demonstrar toda a sua virtude. 

Falar de fraternidade em um encontro religioso ou entre seus melhores amigos é lindo... mas acolher aquela pessoa que estuda ou trabalha com você na mesma sala também é uma forma de expressar as suas virtudes. 

Virtude, minha gente, é o que o mundo precisa. Falar de amizade quando alguém te magoa é preciso. Mas sustentar uma amizade quando as opiniões são diferentes é fantástico.

Em tempos de generalização e falta de empatia, em que valem mais os discursos bonitinhos do que a prática, em que o problema está sempre no outro, vou tentando entender o que está acontecendo.

Empatia só serve se for do outro para comigo, ou do outro para com o pobre ou o oprimido, ou do outro para aquele que EU julgo vítima! Se cada um tem um critério para determinar quem é merecedor da empatia, então estamos perdidos enquanto sociedade. Por que posso estar ao lado de alguém que está agonizando enquanto eu categorizo o sentimento dele dentro daquilo que eu julgo válido, e não no que é real. 

Acredito que todos os que são sensíveis e empáticos padecem desse "mal", que é o de apreciar as relações com as pessoas, amigos e familiares, de maneira intensa. Pessoas assim não tem medo de entrar em uma relação e de se doarem a ela. Em contrapartida se frustram muito mais com as pessoas líquidas!
Quando eu decido ser amiga de uma pessoa eu sou mesmo! Não tem essa de ser hoje e amanhã não ser mais. Não tem essa de falar com a pessoa hoje e amanhã ser indiferente a ela! Serei para sempre e apreciarei para sempre aquela amizade não importa o quanto essa pessoa seja diferente de mim, tenha convicções políticas, ideológicas ou filosóficas diferentes. Não me cabe julgar. Creio que no final das contas todos estão em busca de um mesmo propósito na vida, a diferença é que acreditam em um caminho diferente para chegar a ele. E antes que julguem que sou uma romântica ingênua, já me adianto perguntando se por acaso esse não é o maior medo de alguém que não consegue se predispor a olhar  o outro com a empatia tão falada nos discursos lindos de tolerância que vejo as pencas nas redes sociais. Aquele que me julga ingênua é o mesmo que tem medo de se frustrar nas relações e por isso se mantém sempre no mesmo círculo de amizade de uma vida inteira ou se colocam em uma distancia afetiva segura do outro.

É claro que se uma pessoa passa a me tratar com indiferença, ao meu ver, sem algum motivo aparente, eu não vou continuar investindo nessa relação. Mas até que isso aconteça seremos amigos e pronto! E para mim, ser amigo é ter a liberdade de expor sua opinião, sem temer que a pessoa desapareça depois. 

Realmente é preciso coragem para se relacionar verdadeiramente com as pessoas nesse mundo de apologia ao mecanicismo. Eu não sou uma máquina e eu não tenho medo de me ferrar por me doar demais em uma relação não recíproca.

Pois como bem me ensinou mamãe, pior que ser uma pessoa que vive apenas para servir o próximo, é ser uma pessoa que sabe apenas ser servida. Deve ser uma miséria de ser humano esse que quer apenas ser servido.  


Sobre as escolas na Itália e a adaptação da Sofia ao método - Parte 1

Eu não sou pedagoga. Mas sou mãe de uma criança em fase escolar. Uma coisa que tenho observado desde que a Sofia começou a ir para a escola aqui na Itália é que, em relação ao método das escolas que ela estudou no Brasil, ela se identificou mais com o método dito tradicional. Sabe, aquele que algumas pedagogas no Brasil consideram tortura! Pois é... eu tenho várias críticas a organização da escola aqui, que de fato estão aquém das minhas expectativas, mas até o momento não tenho do que reclamar do método.

Certa vez, quando ela estava sendo alfabetizada, ainda no Brasil, enquanto fazíamos a lição de casa, Sofia me vem com uma ideia que me deixou surpresa. Ela estava estudando português e confusa sobre a grafia de umas palavras me disse: Que irritante isso, mãe Nine! Podia ser assim: "Ba-be-bi-bo-bu"!!!
No contexto, ela estava se referindo à metodologia utilizada na maioria das escolas no Brasil para o letramento. Ela queria estruturar as suas ideias na cabeça e estava sentindo dificuldade de fazer isso devido ao método que tinha aprendido a ler. Eu aprendi a ler e a escrever no método "ba-be-bi-bo-bu" e não tenho queixas dele! Pois consegui deduzir a formação da maioria das sílabas simples a partir desse primeiro exemplo.

De fato eu estava achando realmente muito estranho uma criança com tanta aptidão para a linguagem ter dificuldades para ler e escrever (aos dois anos de idade ela se comunicava como uma criança de 5!). E não apenas isso, ela estava indisposta a aprender e isso me preocupava um pouco.
Então um dia tive a ideia de propor a ela um exercício para trabalhar com a formação de sílabas simples com todas as letras do alfabeto e depois escrever palavras que iniciassem com cada uma dessas sílabas. Aparentemente é uma tarefa muito chata, mas ela se dedicou com muito afinco até o fim. Foi aí que entendi o que estava se passando!

Chegando aqui, eu já imaginava que o método seria aquele que no Brasil consideram tradicional. E como eu esperava, ela se adaptou super bem!

Os professores passam quilos de tarefas e ainda deram um livro do ano passado para ela treinar as palavras e aprender nomes de objetos em Italiano. Ela está tão dedicada que dá gosto de ver!
No caderno, ela precisa copiar várias vezes as mesmas palavras e, sem reclamar, ela faz todas as cópias e pergunta a tradução delas.
Os cadernos que a escola utiliza são adaptados para cada série. O que muda são as linhas. No caso do 3º ano as linhas são aquelas do caderno de caligrafia. A letra dela está uma coisa linda! Ela não teve dificuldade para se adaptar à caligrafia, pois desde o ano passado eu já vinha treinando com ela em casa. E desde o início do ano, estávamos fazendo homeschooling e a caligrafia fazia parte do cronograma.

Ela também usa cadernos que são para o 4º ano, que são aqueles que nós conhecemos com as linhas normais.
E para matemática ela usa aquele quadriculadinho. Eu adoro o quadriculado!!! Comprei até um pra mim!
Também tem uma coisa engraçada, que usam no colégio dela, que são as cores dos cadernos. As disciplinas são identificadas por cores. No início eu achei estranho ela dizendo que a professora pediu para ela levar um caderno branco. Achei que fosse um tipo de caderno chamado branco (rsrsrs), más não, era a cor da capa mesmo!

Ela começou a estudar a mais ou menos um mês e pulou do nível 1 ao nível 6 na comunicação em Italiano. Não só fala, como escreve.
Tirando a parte do Italiano, se fosse em português eu também diria que seu crescimento no campo pedagógico e autonomia pularam do nível 4 para o nível 8. Impressionante! No Brasil era uma guerra estudar com a Sofia e agora ela demonstra bastante entusiasmo com as lições de casa.
As queixas que eu tinha em relação a escola permanecem, pois estão no âmbito da organização e da comida (que ela reclama diariamente). Mas ela estava com tanta vontade de interagir e de fazer novos amigos que esses problemas ficaram pequenos para minha pequena guerreira!
Uma outra coisa que me deixou bastante feliz foi que após uma longa saga para conseguirmos conversar com os professores e a coordenadora, criamos um certo vínculo e os professores estão super empenhados na adaptação dela. Um professor em especial está fazendo um intercâmbio de cultura entre os colegas de diversas nacionalidades que estão na turma dela. Tem criança da Romênia, do Egito, do Japão, da França... todos na mesma sala. Vez ou outra eles fazem a troca intercultural. Isso eu considero de uma riqueza inominável.

Ainda em relação ao método, não estou aqui emitindo um julgamento a respeito de qual metodologia é melhor ou pior. Só posso dizer que para a Sofia, esse método deu mais certo que o que tínhamos no Brasil. Quando vamos praticar a leitura percebo que ela tem um péssimo hábito de tentar deduzir as palavras que está lendo. Ela lê as primeiras sílabas e tenta deduzir o restante. Mas não funciona em Italiano por que ela ainda está aprendendo as palavras. Tenho que constantemente pedir para ela ler todas as sílabas.


Fico feliz por poder partilhar, espero que seja útil para as famílias que estão de mudança pra cá com seus pimpolhos. 

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Sobre intensidade.


É como o rompimento de uma represa... é como ser a represa.
Recentemente visitei uma represa e fiquei admirada com o tamanho da parede e sem que eu conseguisse controlar meus pensamentos imaginei tudo aquilo se quebrando e a água escoando violentamente e destruindo tudo o que estivesse em seu caminho. As vezes tenho pensamentos trágicos e eles vem sem querer. Do mesmo modo algumas emoções arrebentam as paredes do meu ser e saem destruindo tudo o que está pelo caminho.
Madurões que me critiquem, mas sou uma enxurrada de emoções.
Certa vez ouvi de um "bem resolvido" que ser intensa como eu era uma coisa terrível, pois preferia ser como era, uma pessoa que controla as próprias emoções, afinal, quando houvesse dor e tristeza, deveria ser insuportável. Eu respondi apenas que quando há felicidade e alegria também era insuportável (para os outros). Fato, a alegria alheia incomoda e as vezes a tristeza também.
Existe uma busca insana por uma pseudomaturidade que se revela por meio de um aparente controle das emoções, um aparente equilíbrio, uma aparente indiferença, uma aparente frieza.
Percebo uma tentativa de distanciamento das emoções como se elas fossem perigosas. E são! Não me revelo para não parecer imaturo. Não me revelo por que o outro pode não querer me acolher se descobrir que sou frágil e estou mal. Acontece...
O tempo passa e continuo sentindo a vida a fior di pelle. Me jogando, me quebrando, me partindo, me colando. Mas também transcendendo, me deleitando com as sensações, aprendendo com as delícias da existência e da minha natureza humana.
Não credito em uma vida sã... aliás, acredito que a sanidade seja uma grande loucura.



domingo, 3 de julho de 2016

Eu pareço pedra, eu queria ser pedra... Mas nasci flor.

Imagem escolhida pela minha amada filha.
"Se você fosse uma flor, seria um jardim inteiro." (Sofia)
Quantas histórias guardamos lá no fundo do nosso arquivo de memórias. As vezes ficam tão guardadinhas que nem lembramos mais que fazem parte de nós, que nos constitui. E mesmo que a gente ignore, ou aparentemente esqueça, suas flores e espinhos continuam lá. E vez ou outra os espinhos vem incomodar. 

Estamos todos em busca da felicidade. Queremos ser amados e acolhidos. O afeto é o alimento da nossa alma, é o que nos nutre, nos supre. Quando sentimos que não recebemos afeto o suficiente, quando nos deparamos com a sensação de solidão, de desamparo, de insignificância, tentamos nos proteger de uma dor invisível, impalpável, intangível.

Quando somos crianças o mundo é muito mais sensorial e simbólico. Um abandono ou uma agressão pode se tornar uma tragédia e roubar para sempre esse ser humano de um espaço sagrado de ser ele mesmo, da autenticidade, da segurança. Esse espaço pode ser preenchido com outras sensações desagradáveis que vão nortear as escolhas, a visão de mundo, as relações... nos tornamos reféns das nossas dores e dos nossos medos até nos libertarmos deles. 

Como mulher não é surpresa que confesse as dores e delícias de uma vida a driblar os estigmas da sexualidade, maternidade e vida moderna. E como ser humano hei de confessar que ainda convivo com aquela criança que outrora fui e que caminha comigo sedenta com suas dores e angustias. É uma "criança mulher" que carrega algumas memórias extras, peculiares dessa natureza de existência.

Hoje essa criança bate na minha porta e pede para falar-me. Pede para ser ouvida e cuidada. Ela quer compreender por que a ignorei tantas vezes e não quis dar o devido valor à suas queixas, à suas necessidades, à sua carência. Ela quer que eu a pegue no colo e diga que está tudo bem, que não vou mais sair dali e nem dizer que é bobagem qualquer que seja a sua crise.

Quando a nossa criança é negligenciada ela sofre e se sente amuada. E lá se vai ela para um cantinho qualquer se esconder, para se proteger dos monstros que vê e dos que não vê. As vezes ela fica lá escondida por tanto tempo que até esquecemos que ela existe. 

As vezes criamos uma armadura forte para dar a sensação de segurança.  Daí passamos uma vida com dores nas costas sustentando o peso daquela armadura pesada. É preciso força, e aprendemos a por força em tudo... parecemos fortes. E todo mundo a vê como se fosse você e pensa que se trata de um guerreiro forte e resoluto que encara a vida com coragem. Mas a criança está lá embaixo da cama chupando seu dedo apavorada. 

De repente me vi mãe dessa criança. De repente me vi mãe de mim mesma. Que com cuidado devo perceber os perigos da vida e cuidar dessa pequena para ensiná-la a crescer. Tudo muda de perspectiva.

As crianças são alegres e leves. Mas não há leveza quando existem dores. A leveza consiste em despir as armaduras e flutuar na existência. E felicidade é conseguir ouvir sem medo as mensagens que o coração manda, sejam quais forem, ainda que tristeza. Afinal, poder ser triste também faz parte da felicidade. E sabedoria é ver com clareza o que se passa de fato, por detrás dos véus, por detrás das máscaras, por detrás dos escudos e armaduras. 

A sabedoria permite o voo da liberdade, aquele em que a nossa alma se expande em amor e perdão, inundando o nosso ser da plenitude que nos equilibra e nos coloca no centro de nós mesmos e das nossas vidas. Nos leva aos céus e entre as nuvens contemplamos a luz.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Amizade

Lá na curva da estrada
Onde a vida pausa e pensa
Te encontro em mesma face
De virtude e luz intensa

Eu transitando em contra-mão
Do golpe frio a desviar
Entre mim e volante um coração 
Pulsando feito buzinar

Entre os carros me quedei
Entre soluços até sorri
E sem paródias revelei
Que, ora, quase que morri!

E sem mirar-te prossegui
Sem saber onde chegar
E em zig-zag consegui
Em segurança me encontrar

E me abraçaste com afeto
Eu num suspiro aliviado
Pensei: que bom te ter por perto!
Com um sorriso emocionado.

Parti feito um passarinho
Sentindo o sol, a viração
Levando o seu abraço-ninho
E em meu peito a gratidão


terça-feira, 7 de junho de 2016

Epitáfio

Versos inacabados...

Sobre o túmulo, ascende
De alma nua travestida
Sobre o céu escuro pende
Entre lágrimas escondidas

Sinto-me espremida, cansada
Na solidão, perdida
Pelo vazio torturada
Uma criança esquecida.

sábado, 30 de abril de 2016

Poetizando


Linguagem

Me dei conta de que escrevo muito mal. Não sou capaz nem de longe de expressar a loucura que se passa aqui dentro que pra mim tem muita lógica, mas quando transcrevo perde a graça. As palavras são limitadas...

Aceito

Tantas coisas aconteceram no último mês que me modifiquei profundamente. É como se de repente tivesse acordado. Ou percebido que estava em estado de embriaguez.
Algumas pessoas partiram, algumas coisas partiram. Quando parei de lamentar aprendi a aceitar e aceitar é muito reconfortante.

Inexata

Se estou deprimida, tranquila ou eufórica, não é o caso...
A questão é se sou capaz de compreender durante quanto tempo do dia permaneço em cada um desses estados de espírito.
Sou intensa como a água, que vai com força e depois segue branda e não tenho culpa de ser assim.
Proponho a mim mesma o silêncio, e quando ele vem eu divago.

Memória traidora

Percebi que preciso escrever mais para que não me esqueça das coisas. Tenho esquecido tudo, menos do passado.

Sobre o medo

Me lembrei de certo dia em que falei na terapia sobre uma constante sensação de medo que me lembrava de sentir na maior parte de minhas lembranças da primeira infância. Minha terapeuta na época me olhou nos olhos e disse que eu não manifestava ser uma pessoa medrosa. Imagine, senti medo naquele momento. O medo é uma contração natural em mim, como aquela resposta rápida que damos por reflexo quando alguém nos lança um objeto. Minhas costas doem.

Memórias...

Quando eu era criança, eu carecia de um espaço em que eu pudesse me abrigar e me sentir acolhida e protegida. Podia ser um colo, um agasalho, um quartinho, um cobertor. Mas aquela sensação de se sentir protegida eu não me esqueço.
Me recordo de um certo dia em que minha mãe me deu um conjunto de moletom cor de rosa e ele me aqueceu em um dia frio. Eu tinha uns 6 anos de idade e me lembro com clareza desse momento em que uma sensação intensa de conforto quebrava aquela sensação de desamparo.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Arriba Muchachas!!!

Há algum tempo estou procurando encontrar algum tempo (rsrsrs) para escrever sobre minha recente viagem de férias ao México.
Certamente o México está entre as minhas melhores experiências de viagem. Simplesmente amei (amamos).

Taxco
Primeiro que, como costumo brincar com meus amigos ao falar dessa viagem, quando pensava em México o que me vinha à cabeça era a imagem de um deserto, cheio de cactos, com alguns Mariachis tocando para alguns calangos coloridos e algum estabelecimento chamado "Taco-algumacoisa", cheio de caveirinhas e bandeirolas, com pessoas suadas tomando tequila. Tipo isso. Sem contar a fama de violenta da cidade nos deixou com um pé atrás. Todo mundo nos mandou tomar cuidado.

Mas então cheguei e encontrei um lugar bonito, uma cidade moderna como a Cidade do México, uma outra pitoresca e interessante como Taxco e uma divertida e iluminada como Acapulco e percebi que a mídia é uma merda mesmo.

Vista da cidade de Taxco.
Não consigo deixar de divulgar que foi uma das viagens mais interessantes que já fiz e que vale a pena demais ir ao México. Em relação a viagem que fizemos à Argentina, no ano retrasado, o México dá um baile em atrações, em coisas interessantes para conhecer, em elementos culturais riquíssimos e pouco divulgados pra nós Tipiniquins.
Vou tentar resumir por que gostei tanto dessa aventura. 



A viagem durou 12 dias. Mas ficamos apenas 10 dias no México por que os outros foram gastos para ir e voltar. Fomos pela Copa Airline (não gostamos), com escala no Panamá (detestamos). Conhecemos três cidades: Acapulco, Taxco e cidade do México (incluindo Teotihuacan).
Éramos duas mulheres e uma criança de 6 anos! 
Já no México, andamos pra lá e pra cá a pé, de ônibus, de metrô, de taxi e não nos perdemos, não fomos assaltadas e nem sequestradas.

Não vimos muitas pessoas mal encaradas nas ruas, não fomos perturbadas, fomos super bem tratadas e atendidas em todos os estabelecimentos, lojas, restaurantes, mercados que fomos, experimentamos altos quitutes na rua e não passamos mal nem uma vezinha sequer. 

Primeiramente, fomos para Acapulco. A viagem foi longuíssima, por que compramos a passagem em uma promoção e tivemos que descer na Cidade do México, dormir lá uma noite e no outro dia partir para Acapulco.

Praia de Acapulco
Sobre o deslocamento... bem, fomos de metrô (sim, metrô  custa apenas 5 pesos) até a estação de ônibus e lá pegamos um ônibus muito bom para Acapulco. O ônibus era ótimo, novo, limpo, ofereciam um refrigerante de brinde, chá, café, tinha tv, ar condicionado. Bem melhor que muitos aqui no Brasil. 
Acapulco é uma cidade litorânea turística. Beeeem turística! A maior parte da orla é rodeada por grandes hotéis. Conhecemos o centro, o Forte de San Diego e La quedrada. Gostamos muito de ver as praças cheias de gente animada, dançando, comendo, brincando.

Uma coisa que adooooooro são as feiras, experimentar as comidas típicas e o artesanato. Amei, amei, amei! Achei tudo lindo e colorido. Do que me chamou muito a atenção em Acapulco, foram os ônibus que circulavam a orla. Eram uma atração a parte. Eram pequenos, velhos e coloridos. Estava sempre tocando alguma música latina. Aliás, por toda parte por onde andávamos tinha música. Mas nos ônibus, além da música, de noite tinha luz neon dentro do ônibus, tipo uma boate. Além dos ônibus, nos chamou a atenção o exército nas ruas com espingardas enormes. No primeiro dia ficamos um pouco assustadas, mas como já tinha lido sobre isso antes de ir, rapidinho entendi que é uma medida preventiva. A cidade também tem muita pobreza nas redondezas das zonas turísticas. Me lembrou um pouco a periferia do Rio de Janeiro.

Máscara ritualística
Dormimos 4 noites em Acapulco e fomos para Taxco, uma cidade pitoresca, conhecida como a cidade da prata que fica no alto das montanhas. É tipo um Ouro Preto da vida, bem bonitinha, com uma praça central com um coreto e uma igreja recheda de ouro. Ficamos apenas um dia lá e também gostamos muito. A única coisa chata era ser abordada a cada cinco minutos por alguém nos oferecendo prata. Mas andamos nas feiras, compramos morango e maracujá doce. Além disso andamos no táxi-fusca! Nunca vi tanto fusca por m² como em Taxco.


No outro dia fomos para a Cidade do México. Nos hospedamos na Zona Rosa, ao lado da estação do metrô Insurgentes, o que facilitou absurdamente o nosso deslocamento. #ficadica

À esquerda, carne. Á direita, insetos!
Gostamos muito da região onde ficamos. Muitos bares, restaurantes, muita animação, muita gente, muita comida. Confesso que nos últimos dias optamos pelo MC Donalds por que enjoamos das tortilhas, das pimentas surpresas e do Consome de Pollo. O bom do Mc Donald's de lá é que posíamos servir bebida, barbecue e picles a vontade além dos trocentos tipos de molhos deles disponíveis.

Calendário Maya

Conhecemos o museu de arqueologia que merece um post só pra ele, pois foi a essência da nossa viagem, coroada pela visita às ruínas da cidade dos deuses de Teotihuacan. Foi ótimo, realmente adoramos dar esse mergulho nesse universo cultural tão interessante como é a cultura Maya e Asteca. Á propósito, fomos conhecer as ruínas de ônibus e voltamos ilesas e sem susto.


Uma outra parte muito mais emocionante da viagem, sem dúvida e que também merece um post só pra falar dela, foi a nossa visita à Casa Azul, museu da Frida Kahlo. Não tenho palavras pra dizer o quanto me emocionou enquanto admiradora. Me senti como o Percy Jacson no cassino após comer a flor de Lótus. Fiquei horas lá dentro e tive a sensação de ter permanecido uma horinha apenas. Fotografei tuuuuuudo com detalhes, todos os quadros, todos os milímetros. Se você pretende ir, se prepare para pagar pela autorização de fotografar ;)


Depois fomos ao mercado de Coyoacan. Fomos a pé do museu por que é pertinho. Comprei um monte daqueles doces suuuper açucarados e comi uma das famosas Tostadas Coyoacan, uma espécie de ceviche servido sobre uma tortilha de milho com vinagrete e abacate (ô povo que come abacate!!!).
Mercado de Coyoacan



Vi trezentas pinhatas, outros trezentos tipos de artigos com a fotografia da Frida Kahlo estampada. É nítido o quanto ela foi significativa no fato da cultura Mexicana ser conhecida internacionalmente. 


Em uma das noites fomos a um restaurante típico para ver os Mariachis. Queria que a minha filha visse o maior número possíveis de elementos típicos da cultura do país. Imaginem: Ela amou! Se divertiu mais que todo mundo. Viu além dos Mariachis, os cantores das músicas típicas, os dançarinos, o homem com o laço (que não sei como chamam) e até uma briga de galo (calma, foi bem rapidinha, só pra mostrar).

Sopa de tortilhas, toicinho e abacate.
Sobre a comida, tenho que dizer que não curti tanto assim. Por que esperava uma guacamole temperada e quase sempre vinha insossa. Sem os molhos (quase todos apimentados) a comida também ficava insossa. Mas adoramos o cachorro quente vendido na rua e também o Consome de Pollo, uma especie da canja aguada bem gostosa. 



No rosto dos nativos vimos traços indígenas muito fortes.

Pirâmide do Sol - Teotihuacan
De modo geral vimos pessoas muito parecidas na cor da pele, cabelo, estatura. Gostamos de perceber como as pessoas são carinhosas com as crianças e como essas eram calmas e educadas. 
Poderia relatar mais inúmeros detalhes da viagem que com certeza são relevantes, mas o post já está muito grande! hehehehe...











Pra finalizar, quero fizer que voltaria com certeza e muitas vezes para conhecer os lugares que não consegui conhecer ainda. 
Hasta luego, México!!!


terça-feira, 10 de novembro de 2015

Soneto de uma quimera

E me deparo com minhas lembranças
Daquelas que emergem por precaução
Protegendo-me de uma mesma emoção
Que um dia sentira na infância

Lembranças algozes de mim criança
Que sentindo tristeza e solidão
Procurava quem lhe desse a mão
Sem depois lhe trair a confiança

Não restava nada além da espera
De um dia entre braços se aninhar
Crendo que o amor não nasce fera

Que podia se dar sem se cobrar
Numa ilusão vazia, uma quimera
Uma virtude ingênua a salutar.



(Um dos poemas mais perfeitos que já escrevi) 

Um ser a transbordar de amor

Amo. Amo tanto. Amo tantos...
Amo sempre. Amo muito! Amo mesmo.
Amo e quero, me apaixono e espero.
Amo o desejo - E padeço desse querer
Eu quero
Eu espero
Desespero
E insisto. Não desisto; Agonizo
Priorizo
Não esqueço.
Quero, quero e não quero!
Ser.
Se sou o amor, sou amada
Amável, estável.
Sou nada, desalmada
Embriagada.
Crucificada
Na lembrança
Que corta a mente
E invade
Protagoniza
Não me larga,
Me escraviza,
Me derrota
Fecha a porta
Na minha cara
E me calo...



Escrito em: 07/09/2015

Eu e a noite

Gosto de escrever quando a minha alma está transbordando, quando estou no meio do caos.
Normalmente minha alma está transbordando e estou no meio do caos... De existir, de ser de sentir.
Se toda força que me puxa para cima é igual a quem me puxa para baixo, estou indo e vindo no dondolar das emoções, no vaivém da digestão e no tilintar irritante daquelas imagens mentais que não cessam nunca, jamais.
Recobrar a memória poética tem um gosto amargo de sangue daquela veia nunca estancada. É vampiresco o desejo de degustar dessa bebida amarga. E estranhamente me deleito à luz de estrelas. no ar sombrio da noite. Eu gosto da noite.
Deliro no caos, extasio-me das contradições do paradoxo, da imperfeição. Adoro os opostos. 
Me encontro e reencontro nesse vazio de sentido e descubro que nele há sentido, que o sentido é ele, o vazio.
Não queria dizer que me encontrei nele por que na verdade eu me perdi. Me encontrei perdida e perdida me encontrei. 
No silêncio da noite me encontrei. No silêncio da noite senti o êxtase do caos, do vazio e na penumbra senti "quem era eu" que estava ali. 

Escrito em: 03/10/2015

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Gente perfeitinha... Que preguiça!

Tenho a maior preguiça de gente perfeitinha. E não só, tenho preguiça de gente que teve a vida perfeitinha e age como se todo mundo tivesse a sua vida colorida. Na boa, sinto tédio dessas pessoas. Tenho preguiça de gente bem resolvida demais, que entende demais, que te analisa demais e parecem vindas de um outro planeta, superior.

Gente perfeitinha pensa que entende tudo e todo mundo, mas não sabe daquelas dores que dilaceram a alma, das dores do abandono, das dores da violência... Gente perfeitinha não sabe do desengano de uma vida de não ser, de não ser feliz, de não ser ninguém, de não ser parte, de não sentir que tem dignidade.

Gente perfeitinha é cheia de teoria e em suas teorias tudo é fácil, tudo é simples, toda dor é drama, fraqueza, mimimi. Faz o mesmo que teorizar o orgasmo quando nunca o teve e pior, acha que sabe o que é por que é doutor na teoria.

Você é muito confuso! Você não sabe o que quer! Tem que saber isso. Tem que saber aquilo... E por aí vai a lista de conselhos de quem não sabe o que é ser amputado, emendado, costurado, improvisado. Quer que o outro corra com muletas sobre memórias vazias de uma alegria e um sossego infantis que alicerçam, mas que nunca teve. Quer ditar como o outro deveria ser sem nunca terem sido. Olha com um olhar de superioridade quem carrega um defunto nas contas.

Gente perfeitinha é muito chata. Tem de haver poesia e a poesia só nasce da dor, da contradição, da ausência, da esperança. Tem de haver o encanto e o encanto só nasce da contemplação e esta requer ausência de juízo, empatia.

Gente perfeitinha é aquela que subjuga, que renega, que não entende nada, que faz cara de dó e por dentro sorri se gabando de ser tão superior diante de alguém que sofre suas crises de existência.

É por essas e outras que prefiro os dilacerados, os apaixonados, os desequilibrados, os ensandecidos. Prefiro os exagerados, os tortos os confusos. Prefiro aqueles que sonham loucamente, que riem e choram ao mesmo tempo. Prefiro os que se descabelam, que oscilam, que morrem de paixão, que se contradizem. Prefiro aqueles que são apenas humanos.